“We confess our little faults to persuade people that we have no large ones.”
François de la Rochefoucauld
“People lie.”
Gregory House, M.D. (interpretado por Hugh Laurie)
Não é fácil ser autor de máximas. É preciso, quanto a mim, ter um olho atento, quase clínico e saber conjugar com um talento inato para a construção quase épica de frases que perdurem no imaginário.
Da observação atenta das pessoas e, mais ainda, do Ser Humano, tentando perceber as suas forças e fraquezas, conseguem retirar-se válidas conclusões que, por si só, já nos levariam imenso tempo a emendar, se disso tivessemos mesmo intenção. Mas quem quer emendar realmente as suas falhas? E, antes do mais, quem quer realmente enfrentar as suas falhas, os seus problemas, a sua natureza humana? É tão mais facil olhar para o lado e deixar as coisas passar, iludindo o próximo com jogos de luzes e movimentos, na secreta esperança que ninguém note e, assim consigamos manter a cara e a respeitabilidade.
“Shadows and dust, Maximus!”
Proximo (interpertado por Oliver Reed, no filme Gladiator)
Mas nunca se esqueçam que “a verdade é como o azeite: vem sempre ao de cima” e que até se pode enganar poucas pessoas por muito tempo, ou muitas pessoas por pouco tempo, mas nunca muitas pessoas por muito tempo. Só há uma solução, sem anti-piréticos, sem analgésicos: enfrentar-se, consciencializarmo-nos do que está mal e meter mãos à obra. Se é fácil? Não, não é. As coisas podem ter (e com certeza que terão!) raízes mais profundas que aquelas que poderiamos pensar e pelo caminho encontram-se coisas nada bonitas que é preciso enfrentar com a coragem do melhor guerreiro que alguma pisou este mundo.
Mas já imaginaram como seria a Vida se emendassemos todas as nossas falhas? Já imaginaram a bagagem que teríamos se tivessemos atirado tudo pela janela fora, restando apenas o essencial? Não acham que todo o combate que possamos fazer nesse sentido é um combate válido, como poucos o serão? E não, não nos estamos a combater a nós mesmos, porque este combate é feito com Amor (não o Amor que eu refuto num post algures abaixo, mas o outro que eu disse que era outra conversa – o Amor Universal). Estamos, isso sim, a lutar contra a Escuridão que nos atormenta, aquela que forma as Sombras mais escuras, que vive nas nossas falhas, que se alimenta dos nossos “podres”, que bebe das nossas lágrimas, que baila por entre os nossos pesadelos, que se alegra com as nossas mentiras e que se revela quando menos esperamos. Só se pode combater a escuridão com Luz, só se pode matar o Medo com Coragem e Pura Intenção. “Mas onde está a Luz? Onde é que a tenho?”, perguntam. É tão fácil!... Está no mais intimo de cada um de nós. Mostra-se no gesto carinhoso que temos com quem precisa, na coragem em enfrentar as situações desagradáveis, na força em prosseguir quando mais nada nos sustenta e o último fôlego quer sair dos nossos pulmões. Sim, está nos nossos Corações, está onde e quando nos sentimos genuinamente Nós, em todo o nosso esplendor, com os corações a arder por saber que estamos a fazer o que é Correcto. E assim que Ela brilha em Nós, todas as mentiras se desvanecem, todos os medos soçobram, só a Vida e aquilo que Somos em Essência permanece. Experimentem...
Um dia vi-te passar, estava eu desprevenido. Devias ter-me avisado, apanhaste-me de cabeça para baixo, a olhar para os pés, em busca de qualquer coisa que me escapava à vista. Já nem me lembro do que era. Como que num vislumbre, apanhei-te pelo canto do olho, já de fugida... Dobravas a esquina movimentada e quase que te perdia. Mas quis algo que acabassemos por ter o mesmo destino e naturalmente acabei por te reencontrar num qualquer café onde parámos.
Sentavas-te à mesa e lias, encantadoramente, de gesto plácido, uma dessas quaisquer revistas de trivialidades, boas para passar o tempo e deixar morrer neurónios de tédio. Pelo jeito como subitamente abanaste a cabeça, impaciente, não tardava até que fechasses a revista. Impetuosa. Pediste um café, uma água das pedras e olhaste para o relógio. Atrasada. O dia estava meio encoberto, mas isso não impedia que o calor se fizesse sentir como se estivessemos nos trópicos.
Tive de sair, o tempo urgia. Saindo, ouvi alguem gritar um nome e vi-te virar. Sabia agora o teu nome e podia associá-lo ao teu passo leve e decidido, ao teu gesto descuidado pela vida, ao olhar seguro e malandro, à sensação que transmitias que sabias perfeitamente o que vinhas cá fazer e como o irias fazer. Sem dúvidas. O teu nome sabia a mil Verões de sabores, a mil aventuras pelo mundo fora, a noites que só na imaginação dos mais indomáveis se podiam conceber e saboreei-o à medida que calcorreava as ruas batidas dessa cidade em fim de dia. Nesses pequenos encantos que a cidade nos reserva, continuei à procura de novas arestas onde prender o meu olhar, pontos de atracção do espírito a transportar-me para outras paragens, outras vidas, outros ritmos que não o costumeiro, entediante e acelerado dia-a-dia onde me perco vezes sem conta...
...ora agora tenho de ir...?...
Transmutaste o meu passeio num passeio de memória fugaz. A cada esquina, em cada pessoa que aí se encontrava, recordava esse breve encontro e procurava nos seus olhos a mesma expressão, a mesma vida que vi nos teus. “Não sejas parvo, foi só uma moça gira que viste, como ela há muitas.”, dizia eu, abstraindo-me para mais uma viela de encantos escondida. Nas janelas, pessoas de idade observavam-me como se adivinhando os meus pensamentos, emitindo um juizo cru: “De que andas tu à procura?”.
Não o sei. Acho que já o soube, um dia, onde há muito tempo só haviam certezas e coisas doces na vida. Agora também as há mas são diferentes. O doce mudou, o salgado também. Têm um pouco de amargo e de ácido até, mas isso até lhes dá outro encanto, dá-lhes vida renovada, uma realidade realçada quase que a 3D que nos transporta para o local onde a primeira vez o saboreámos, nunca deixando de ser o que sou. E, como qualquer outra pessoa, eu sou a soma de todas as coisas que vivi, e de todas as coisas que ainda irei viver, convergindo num único e fugaz instante que continuamente quero apanhar para poder saborear a fundo. Como esta cidade onde passeio, feita de edificios, arruamentos e jardins, que não sabe onde começa e onde acaba, de faces escuras e faces luminosas, de rugas e superficies planas e que me trouxe à memória um vislumbre teu, que é tanto o que eu sou, quanto esta rua que piso e que me levará até casa.